Dra. Juliana Carrion

Blefaroplastia inferior: retirar, preservar ou reposicionar a gordura?

Na blefaroplastia inferior, tratar as bolsas não significa necessariamente retirar toda a gordura. Entenda quando o planejamento pode envolver remoção controlada, preservação ou reposicionamento de volume.

Uma paciente pode ouvir que as bolsas abaixo dos olhos precisam ser retiradas. Em outra avaliação, pode receber a orientação de que parte dessa gordura deve ser preservada ou reposicionada. Embora pareçam contraditórias, essas recomendações podem fazer sentido em anatomias diferentes.

Na blefaroplastia inferior, a decisão não começa pela escolha de uma técnica. Primeiro, é necessário compreender onde existe projeção de gordura, onde há depressão e como esses dois componentes interferem na transição entre a pálpebra e a face.

Quando existe uma bolsa acompanhada de um sulco profundo, por exemplo, simplesmente retirar volume pode acentuar o aspecto de olhar fundo. Em outros casos, a projeção da gordura é o componente predominante e uma remoção controlada pode contribuir para um contorno mais equilibrado.

O reposicionamento de gordura na blefaroplastia inferior é uma das possibilidades desse planejamento, mas não representa uma etapa obrigatória. A escolha depende da anatomia, da qualidade dos tecidos, do suporte palpebral e do resultado que pode ser alcançado com segurança.

O que forma as bolsas da pálpebra inferior?

A gordura orbital faz parte da anatomia normal da região dos olhos. Ela ocupa compartimentos ao redor do globo ocular e contribui para sua acomodação e proteção.

Com o passar do tempo, o enfraquecimento de estruturas que mantêm esse tecido em posição pode tornar alguns compartimentos mais aparentes. Características individuais e hereditárias também podem fazer com que as bolsas sejam percebidas mais cedo, mesmo em pessoas jovens.

Entretanto, nem todo volume abaixo dos olhos é causado pela projeção da gordura orbital. A aparência de bolsa pode envolver diferentes componentes, como:

  • excesso ou flacidez da pele;
  • projeção dos compartimentos de gordura;
  • inchaço transitório;
  • edema na região malar;
  • ação e flacidez do músculo;
  • sulco profundo abaixo da pálpebra;
  • perda ou deslocamento de volume na região da face.

Essas alterações podem aparecer isoladamente ou em conjunto. Uma pessoa pode apresentar uma bolsa de gordura evidente, enquanto outra tem principalmente um sulco marcado que aumenta a percepção de sombra. Também é possível que exista projeção acima e depressão logo abaixo, deixando a transição entre a pálpebra e a bochecha mais irregular.

Por isso, identificar corretamente o que forma o contorno é indispensável antes de decidir o que será retirado, preservado ou redistribuído.

Por que retirar toda a gordura pode deixar o olhar fundo?

Durante muito tempo, a cirurgia das pálpebras inferiores foi associada principalmente à retirada das bolsas. Hoje, o planejamento também considera a importância de preservar volumes necessários para manter uma transição natural entre os olhos e a face.

Uma remoção excessiva pode aprofundar depressões, deixar a borda óssea da órbita mais evidente e criar uma passagem abrupta entre a pálpebra e a região malar. Em vez de apenas reduzir uma projeção, a cirurgia pode produzir um contorno esvaziado ou excessivamente marcado.

Isso não significa que retirar gordura seja inadequado. Em determinadas anatomias, a redução seletiva de um compartimento pode ser necessária. O ponto central é que a remoção precisa ser proporcional e considerar o conjunto da região.

O envelhecimento facial não acontece apenas pelo aparecimento de bolsas. Perda de volume, alterações ósseas, redução da elasticidade da pele e deslocamento dos tecidos também participam da mudança no contorno. Retirar gordura sem avaliar esses fatores pode acentuar características que já estavam se formando.

Retirar, preservar ou reposicionar: o que muda?

Retirada, preservação e reposicionamento não são necessariamente procedimentos concorrentes. São decisões que podem fazer parte do mesmo planejamento.

Em uma única cirurgia, o médico pode preservar a maior parte do volume, reduzir seletivamente uma área de maior projeção e reposicionar uma porção da gordura em direção a uma depressão próxima. A combinação depende do que é identificado em cada lado da face.

Retirada controlada

A retirada controlada pode ser considerada quando existe uma projeção de gordura que precisa ser reduzida e o contorno permite uma remoção seletiva.

O objetivo não é esvaziar a pálpebra, mas diminuir o volume que está se projetando além do necessário. A quantidade retirada pode variar entre os compartimentos e até mesmo entre os dois olhos, especialmente quando existe assimetria.

Não é adequado pensar em “retirar tudo” ou em eliminar definitivamente qualquer possibilidade de volume abaixo dos olhos. A região continuará passando por mudanças naturais ao longo do tempo, e o planejamento precisa preservar tecidos importantes para o contorno e para a função palpebral.

Preservação de gordura

Preservar a gordura significa respeitar o volume que contribui para a sustentação e a continuidade entre a pálpebra e a face.

Essa escolha não representa deixar uma bolsa sem tratamento. Em alguns casos, o tecido pode ser acomodado, redistribuído ou tratado de maneira mais conservadora, evitando a retirada de um volume maior do que o necessário.

A preservação ganha importância quando a região já apresenta tendência ao aprofundamento, pouca cobertura sobre a borda orbitária ou perda de volume facial. Nessas situações, uma cirurgia centrada apenas em reduzir tecido poderia intensificar o aspecto esvaziado.

Reposicionamento de gordura

No reposicionamento, uma parte da gordura palpebral é mobilizada para suavizar uma depressão próxima. Em vez de simplesmente descartar o tecido que forma a bolsa, o cirurgião pode utilizá-lo para melhorar a transição entre a pálpebra e a região malar.

Uma das áreas que podem ser consideradas é o sulco nasojugal, localizado na porção interna da transição entre a pálpebra inferior e a face. Quando a bolsa termina próxima a um sulco bem marcado, a combinação entre projeção e depressão pode acentuar sombras e irregularidades.

O tecido reposicionado permanece ligado à sua origem e é acomodado de acordo com a anatomia e com o planejamento cirúrgico. A extensão da mobilização, a região que receberá o volume e a forma de fixação dependem de avaliação individual.

Quando o reposicionamento de gordura na blefaroplastia inferior pode ser considerado?

O reposicionamento pode ser avaliado quando existe gordura projetada associada a uma depressão próxima, especialmente quando essa combinação produz uma transição marcada entre a pálpebra e a bochecha.

Entre os aspectos que podem levar o médico a considerar essa estratégia estão:

  • bolsa de gordura acompanhada de sulco nasojugal evidente;
  • diferença acentuada entre uma área de projeção e outra de depressão;
  • borda orbitária marcada;
  • necessidade de redistribuir o volume já existente;
  • risco de aprofundamento caso a gordura seja apenas retirada.

Esses sinais não formam uma lista para autodiagnóstico. Nem todo sulco pode ou deve ser corrigido com o reposicionamento da gordura palpebral.

A estrutura óssea, a espessura dos tecidos, a posição da região malar, o grau de flacidez e o suporte da pálpebra inferior influenciam a indicação. Além disso, alterações de pigmentação, vasos aparentes e sombras produzidas pela anatomia podem coexistir, mas exigem análises diferentes.

Preservar volume não significa aumentar o rosto

Uma dúvida comum é se o reposicionamento pode deixar a região abaixo dos olhos mais volumosa. O objetivo do procedimento não é aumentar indiscriminadamente o rosto nem criar um preenchimento excessivo.

O planejamento procura distribuir melhor um volume que já está presente, reduzindo a diferença entre a bolsa e a depressão. A proposta é obter uma passagem mais contínua entre a pálpebra e a face, respeitando as proporções individuais.

Também é importante diferenciar o reposicionamento da gordura palpebral do enxerto de gordura.

No reposicionamento, utiliza-se a própria gordura da pálpebra, que é mobilizada para uma área próxima. No enxerto, a gordura é retirada de outra parte do corpo, preparada e aplicada na região que necessita de volume.

As técnicas têm características, possibilidades e limitações diferentes. A indicação depende da quantidade de tecido disponível, da área que precisa ser tratada e do objetivo do planejamento.

A via de acesso não define sozinha o tratamento da gordura

A blefaroplastia inferior pode ser realizada por diferentes vias de acesso. Na abordagem transconjuntival, a incisão é feita pela parte interna da pálpebra. Na via transcutânea, o acesso ocorre pela pele, geralmente próximo aos cílios.

A escolha está relacionada às estruturas que precisam ser tratadas. Quando não há necessidade de retirar pele, por exemplo, a via interna pode ser considerada em determinados casos. Quando o planejamento também envolve pele, músculo ou outras estruturas, outra abordagem pode ser necessária.

Entretanto, escolher a via de acesso e decidir o que fazer com a gordura são etapas relacionadas, mas não equivalentes. Um acesso transconjuntival não significa automaticamente que toda a gordura será retirada ou reposicionada. Da mesma forma, o tratamento do volume não pode ser definido apenas pela localização da incisão.

Leia também: Blefaroplastia transconjuntival: como funciona o acesso pela parte interna da pálpebra 

A pele e o suporte da pálpebra também entram no planejamento

O contorno abaixo dos olhos não depende somente das bolsas de gordura. A quantidade e a elasticidade da pele, a ação do músculo, a posição da margem palpebral e o suporte lateral também precisam ser avaliados.

Uma paciente pode apresentar projeção de gordura sem excesso relevante de pele. Outra pode ter, além das bolsas, flacidez cutânea e menor sustentação da pálpebra. Essas diferenças modificam o planejamento e impedem que uma mesma técnica seja reproduzida em todas as pessoas.

A avaliação do suporte é especialmente importante porque a cirurgia não deve tratar apenas a aparência da região. A posição, o fechamento e a proteção dos olhos precisam ser preservados.

Por esse motivo, a técnica utilizada em outra paciente, mesmo quando o resultado parece semelhante ao desejado, não determina o que será adequado para uma anatomia diferente.

Como é feita a avaliação da pálpebra inferior?

A avaliação especializada procura compreender como cada estrutura participa da queixa. Não basta observar apenas a bolsa mais aparente.

Entre os aspectos analisados estão:

  • localização e projeção dos compartimentos de gordura;
  • presença e profundidade do sulco;
  • continuidade entre a pálpebra e a região malar;
  • quantidade, qualidade e elasticidade da pele;
  • posição e suporte da pálpebra inferior;
  • simetria entre os dois lados;
  • anatomia do rebordo orbitário;
  • condições da superfície ocular;
  • presença de inchaço ou edema;
  • cirurgias e tratamentos realizados anteriormente;
  • expectativas e características individuais da face.

Fotografias em diferentes ângulos, iluminações e expressões podem ajudar a documentar o contorno e as assimetrias. No entanto, elas não substituem o exame presencial, que permite avaliar a mobilidade dos tecidos, o suporte palpebral e as condições oculares.

A partir desse conjunto de informações, é possível definir se o planejamento deve envolver redução seletiva, preservação, reposicionamento ou uma combinação de estratégias.

pálpebras rugas

Naturalidade depende do que é retirado e do que é preservado

Um resultado natural não depende apenas de uma cicatriz discreta. Ele também está relacionado à maneira como os volumes e as transições da face são tratados.

Na blefaroplastia inferior, reduzir uma projeção pode ser importante, mas preservar tecidos necessários para o contorno também faz parte da cirurgia. O equilíbrio está em tratar o componente que incomoda sem retirar estruturas além do necessário.

Para algumas pacientes, uma remoção controlada será suficiente. Para outras, preservar ou reposicionar parte da gordura pode contribuir para uma transição menos marcada. Também existem casos em que diferentes estratégias são utilizadas em áreas distintas.

Não há uma escolha universalmente superior. A melhor conduta é aquela compatível com a anatomia, a função ocular, as necessidades identificadas no exame e os limites de segurança de cada paciente.

Especialista em cirurgia palpebral: Dra. Juliana Carrion

A Dra. Juliana Carrion é médica oftalmologista especialista em cirurgia plástica ocular, com residência em Oftalmologia e fellowship em Oculoplástica no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Sua avaliação integra anatomia, contorno facial e função ocular para identificar como pele, gordura, músculos, suporte palpebral e região malar participam das alterações abaixo dos olhos.

As bolsas da pálpebra inferior não precisam ser tratadas da mesma maneira em todas as pacientes. Agende uma avaliação com a Dra. Juliana Carrion e entenda se o seu planejamento deve envolver retirada controlada, preservação ou reposicionamento de gordura.

  • blefaroplastia

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